Quem não conhece característica, beleza e magia... de um óleo essencial, da atuação de perfumes com bases naturais - fica com uma visão restrita ou mesmo incompreensível do filme O Perfume. Uma obra tão rica, torna-se cada vez nova por um entre tantos detalhes que se escapa. Mas vou tentar expor meu olhar, com a ajuda de trechos do livro – que acaso você não conheça, convido a essa instigante viagem sensorial:
O Perfume, filme homônimo da obra literária do alemão Patrick Süskind mostra a fixação do personagem Jean-Baptiste Grenouille em conseguirà primeira vista, identidade, amor e domínio, mas não qualquer domínio, não qualquer amor, nem qualquer identidade...
“...Queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”
Grenouille entusiasma-se com esse objetivo ao sentir o aroma de uma jovem ruiva, aquela a quem entre tantos cheiros ele, com sua capacidade olfativa singular, reconhece ter o aroma da Perfeição :
“...Este perfume tinha frescura; não era, porém, a frescura das limas ou das laranjas, a frescura da mirra ou da folha de canela, ou da hortelã, ou das bétulas, ou da cânfora, ou das agulhas de pinheiro, nem a de uma chuva de Maio, de um vento gelado ou da água de uma nascente... e continha simultaneamente calor; mas não um calor semelhante ao da bergamota, do cipreste ou do musgo, nem ao do jasmim ou do narciso, nem ao de um bosque de rosas ou de íris... Este perfume era uma mistura de ambos, do que passa e do que pesa; não uma mistura, mas uma unidade, e, além disso, humilde e fraco, e, no entanto, robusto e resistente como um pedaço de seda fina e brilhante... e, todavia, não como a seda, mas antes como o leite com mel onde se molha um biscoito, o que nem com a melhor das boas vontades se conjugava:leite e seda! Incompreensível este perfume, indescritível, impossível de classificar! Não deveria, na realidade, existir. E, no entanto, ali estava com a mais absoluta das obviedades...” (*1)
Eu li o livro há uns 15 anos, e a cena inicial do nascimento de Grenouille na barraca de peixes na Paris de 1738, era a única vívida e perfeita na minha mente assim que assisti ao filme em 2007.
Hoje fico pensando se o autor não criou a ideia do nascimento em meio aos peixes propositalmente, pois é fato que o corpo humano em excitação sexual, exale um odor similar aos dos mariscos e peixes... Grenouille é o primeiro dos outros quatro filhos nascidos na mesma situação que irá nesse ambiente podre e fétido - em meio ao lixo e peixes em decomposição - jogado na sombra e no cheiro da vida que fenece, sobreviver. Assim, Grenouille parecerá ser regido unicamente pelo instinto da sobrevivência.
Diferente de outras histórias com personagens sensíveis e/ou evoluídos com capacidade olfativa aguçada, Grenouille é o inverso. Usará o olfato como o usa um animal predador, ou menos, pois Süskind o compara, a um carrapato.
“...O grito depois do seu nascimento, o grito sob a mesa de limpar peixe, o grito com que ele se tinha feito notar e levado a mãe ao cadafalso, não fora um grito instintivo de compaixão e amor. Fora bem pesado, quase se poderia dizer um grito maduramente pensado e pesado, com que o recém-nascido se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida. Nas circunstâncias, isto era possível sem aquilo, e, se a criança tivesse exigido ambos, então teria, sem dúvida, fenecido miseramente. Também teria podido, no entanto, escolher naquela ocasião a segunda possibilidade que lhe estava aberta, calando e legando o caminho do nascimento para a morte sem esse desvio pela vida, e assim teria poupado a si e ao mundo uma porção de desgraças. Mas, para se omitir tão humildemente, teria sido necessário um mínimo de gentileza inata, e isto Grenouille não possuía. Foi um monstro desde o começo. Ele se decidiu em favor da vida por pura teimosia e maldade.”(*2)
Ele ainda vai sobreviver em vários episódios narrados no livro. “...Tinha a resistência de uma bactéria” - o que justifica a aparência frágil, manco, cheia de cicatrizes e escoriações do personagem no filme.
Grenouille tem um olfato incomum, mas não possui cheiro !
Para os personagens que faz contato, deixa sempre um rastro destrutivo,quando não mascarado pelos aromas“...devorava tudo, absolutamente tudo e absorvia tudo”.
Uma pena que no filme não se conte a história de Madame Gaillard, do padre Terrier, nem das amas que o rejeitam, pois “ ...ele suga-lhes até os ossos...” ,do quanto incomoda as pessoas serem invadidas (cheiradas), e não poderem se quer o classificar intuitivamente, ou seja, cheirar o que seja Grenouille. Até finalmente encontrar Madame Gaillard com seu nariz torto :
“...Quando era ainda uma menina, o pai batera-lhe com um atiçador na fronte, mesmo por cima do começo do nariz e ela perdera o olfato, juntamente com toda a noção do calor ou da frieza humanos e da paixão em geral...”
E assim, lhe é aceitável em seu orfanato, até que mais tarde ela começa a notar em Grenouille diversos poderes “...sobrenaturais”, como saber (cheirar) quando as pessoas estão chegando, por exemplo. Até o medo maior de que ele também descubra seu dinheiro guardado, e assim trata de livrar-se dele.
É fato que a primeira vez que assisti ao filme, não notei alguns detalhes, nossos olhos acabam ficando com medo, sobretudo dos assassinatos. Tem também muitas cenas escuras, o que é compreensível pois é a claridade que contrasta – como morte e vida - revelando belos campos de lavanda ou o verde das montanhas.
Há uma cena memorável do perfumista Baldini, interpretado por Dustin Hoffman, que viaja no Agora em cores, leveza, amor e frescor ao sentir um perfume elaborado por Grenouille.
“...Baldini cerrou os olhos e pôde ver nele despertadas recordações das mais sublimes. Viu-se caminhando, jovem, por jardins, à noite, em Nápoles; viu-se deitado nos braços de uma mulher com negras franjas e viu a silhueta de um ramalhete de rosas no peitoril da janela, pela qual soprava um vento noturno; ouviu pássaros cantando e, de longe, a música de uma taberna; ouviu coisas sussurradas bem pertinho do seu ouvido, um eu-te-amo, e sentiu como seus cabelos se eriçavam de puro deleite, agora! Nesse instante! Gemeu de prazer....Era algo de inteiramente novo, capaz de criar por si todo um universo, um universo maravilhoso e luxuriante e logo se esquecia o que o mundo à volta possuía de repugnante. Uma pessoa sentia-se rica, livre e boa... Os cabelos eriçados do braço de Baldini se deitaram e uma sedutora paz de espírito dele se apossou...”
Grenouille só irá perceber que não cheira a nada bem mais tarde, quando se retira nas montanhas, lá onde até então pensara ser feliz em ter alguma existência na solidão.
Numa cena, Grenouille passa por cães de guarda, que dormem, sem ser de forma alguma notado – aparecendo mais nitidamente aos nossos olhos como se sente: um fantasma.
“...Desde jovem estava acostumado a que as pessoas que por ele passavam nem sequer tomassem conhecimento, não por desconsideração — como uma vez havia acreditado — mas porque não notavam a sua existência. Não havia espaço algum em torno dele, nenhum impulso de onda que ele, como as outras pessoas, emanasse na atmosfera, nenhuma sombra, por assim dizer, que ele tivesse podido projetar sobre o rosto das outras pessoas. ”
Também não é contado no filme, mas a primeira possibilidade de Grenouille ser notado é quando formula para si um perfume com cheiro humano, o cheiro superficial, mas o suficiente para enganar as pessoas – consegue ser “visto” ! Esse trecho do livro é uma analogia sobre usar recursos para ser inserido num grupo, ganhar algum poder ou mesmo aprimorar e melhor nossas condições. Bom, fazemos isso o tempo todo. Grenouille inclusive a partir do uso desse artifício melhora sua postura corporal.
Só que a partir daí... Grenouille tem uma ideia que lhe fará ser mais do que um igual...
Em Grasse, de posse das essências (almas/auras) das jovens, Grenouille finalmente irá elaborar “O Perfume” na cena mais surpreendente do filme.
A cena na praça (Place dus Cours) onde seria executado, que vista sem entendimento irá parecer completamente desprovida de sentido - como nada além de uma grande orgia - é o contexto aqui descrito :
“.... seria capaz de criar um odor que fosse não só humano, mas sobre-humano, um odor angélico, tão indescritivelmente bom e com tanta energia vital que quem o cheirasse ficaria enfeitiçado, ficaria sob um encantamento, tendo de amar de todo o coração a Grenouille, o portador desse fantástico aroma. Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até o sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar e gritar, chorar de prazer, sem saber por quê, cair de joelhos — isto é que deveriam fazer como sob o incenso frio de deus, só por chegarem a cheirá-lo!”
Grenouille revestido de toda aura aromática de apenas uma gota do “Perfume”, transmuta-se para as pessoas em Anjo ou na personificação do melhor que elas crêem. Diferentemente do que parece, as pessoas não se desnudam com o olhar da moralidade com o qual podemos assistir. O “Perfume” é a descrição da primeira jovem (*1), o aroma da união dos opostos, da totalidade, da Unidade ! As pessoas entram num devaneio, numa nuvem espiritual que toma todo o ar, só há a embriaguez do êxtase para respirar... da liberdade, da alegria, da pureza.
E desprovidos de qualquer razão, e portanto dos preconceitos, do julgamento, do Bem e do Mal, de um passado e de um futuro moral, transcendem como podem. E assim copulando ao acaso com quem estivesse ao lado – buscando através dos seus corpos também ser Um - inebriados dão-se, acolhem-se, amam-se. É a alegoria de um arrebatamento indescritível e das expressões carnais possíveis, nos dando também uma mostra física à semelhança dos aromas mais sutis na natureza, que são pura onda de energia vital/sexual !
A cena é o vislumbre da fusão: volúpia e inocência.
O pai de Laure, Richis, também vai amá-lo, pois vê sua filha, ou melhor, vê a legitimidade em essência de sua filha em Grenouille, aromaticamente mascarado à sua frente.
“...O olhar de Richis pousava sobre ele. Amor infinito havia nesse olhar, delicadeza, comoção e a profundidade oca, boba, de quem ama.”
Grenouille num primeiro momento comemora seu feito, ri, vive o grande triunfo. Mas não demora muito para ir do êxito ao fracasso, cair em si e derramar uma lágrima. Proporcionara às pessoas a embriaguez do Amor, mas ele, Grenouille, começa a se sentir mal, sufocado da falta de si mesmo. (No filme, isso é mostrado numa alusão à primeira jovem. O filme é mais comercial e a cena também é uma forma boa de explicar a decepção de Grenouille, mas pode confundir).
Frustrado, vai embora, começando uma caminhada de volta à Paris. Com o Perfume no bolso, sabe que detém de um poder que lhe pode proporcionar qualquer coisa, pois faz as pessoas amarem. Mas já nada importa, pois sabe que com toda riqueza e todo poder que poderia ter, nada disso lhe faria ter seu próprio cheiro, ser alguém, e mais importante “...não podia cheirar a si mesmo e, por isso, jamais saberia quem ele era”.
E constata sobre o Perfume, e seu próprio paradoxo “...o único que alguma vez o reconheceu em sua verdadeira beleza fui eu, porque eu mesmo o fiz. E ao mesmo tempo sou o único a quem ele não pode fascinar, não pode deixar fora de si. Sou o único para quem não tem sentido.”
Quando Grenouille relembra a cena da praça pensa: “...As pessoas, no entanto, acreditavam que desejavam a mim, e o que elas realmente desejavam permaneceu um segredo para elas.”
Grenouille não tinha lá muito discernimento, mas sabia olfativamente, e portanto do que havia por trás das aparências e dos desejos alheios. Ele não podia se beneficiar da cegueira aromática ao qual detinha o conhecimento. Além disso, Süskind parece também fazer uma analogia com quantas vezes acreditamos querer algo ou alguém, mas que no fundo é por sua fragrância que nos completará em nossa suposta também inodoriedade em algum aspecto, no desejo secreto de também revelar nossa própria identidade...
Grenouille chega à Paris, ao mesmo local do seu nascimento, ao mesmo cheiro.
Mistura-se ao redor de uma fogueira - como sempre, sem ser notado - entre os ladrões, prostitutas, assassinos, desesperados, famintos. E ali derrama em si todo o conteúdo que carregava do “Perfume”, e após um momento de maravilhamento das pessoas, é por elas devorado.
Ou melhor, Grenouille atira contra ele a arma mais poderosa que tinha em mãos, o amor.
Saindo de Grasse, Grenouille havia decidido morrer. Já tinha experimentado viver com as pessoas e se refugiado delas, e nem uma ou outra ideia lhe agradava. Sabia agora que, devido a ignorância das pessoas, não alcançaria o reconhecimento desejado. Na verdade caira na própria armadilha, o “Perfume” na Place dus Cours também distinguira o que havia de mais profundo no coração de Grenouille...
“....O que ele sempre havia desejado, ou seja, que as outras pessoas o amassem, tornava-se, no instante do seu êxito, insuportável, pois ele mesmo não as amava, mas as odiava. E de repente soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão-somente no ódio, no odiar e no ser odiado.”
Grenouille descobrira que o amor das outras pessoas não lhe trazia satisfação, não só porque não era atribuído para ele próprio, mas principalmente porque não ama as pessoas, não consegue amá-las, nem é inebriado do “Perfume”. A possibilidade de sua sobrevivência sempre fora na ausência do amor. Conclui que não pode externar nada verdadeiramente seu, que não o ódio.
“...Uma vez, uma única vez, queria ser considerado em sua verdadeira existência e receber de outra pessoa uma resposta ao seu único sentimento verdadeiro, o ódio.”
Grenouille caminha pela história como personificação de como na maioria das vezes caminha - dentro e fora - o Mal... nas sombras, imperceptível mas incômodo, sugador, destrutivo, disfarçado, inodoro. O seu senso de “...ter sentido”,está na existência do seu oposto, e por ele se atrai. Porém, se rendido ao amor, unifica-se e morre.
Podemos ver também o paralelo acima sob a ótica de um Grenouille-ego. Um dia, dentro de uma caverna, bêbado das memórias aromáticas, sonha com névoas e descobre que não É, e sai em busca de uma identidade e de reconhecimento, que não encontra na sua elaboração egoísta.
A obra de Patrick Süskind primeiro nos convida à uma viagem fora da lógica, e nos conta muita coisa, muito mais que a história de um assassino... metáforas ao mal, ego, identidade, poder, manipulação, pureza, carisma. Também conta nos um pouco dos aromas vegetais, da destilação à vapor, enfleurage, notas olfativas, da vibração que os aromas naturais exercem sobre as pessoas. E nas entrelinhas conta-nos de Espírito, Unidade, Agora, Insights, Amor... porque sua obra tem o tema “Essência” !
Talvez Süskind se sinta como seu personagem “...Os outros só se submetem ao seu efeito, sim, nem se quer sabem que se trata de um perfume o que sobre eles atua e fascina.”.
“O Perfume” é sinônimo de “O Amor”.
Não do amor de um homem por uma mulher, pois Grenouille fareja o que precisamente o atrai, despreza o corpo. Interessa-lhe a essência, a aura perfumada, e o poder que emana dessa centelha divina e viva além da matéria “... a temível beleza”, a fragrância do Amor Maior. Todo o desejo íntimo de aquisição de Grenouille está fora da matéria.
Patrick Süskind, ao meu ver, faz uma grande e genial metáfora na história de O Perfume, criando um elo essencial entre Vida e Amor :
“...recém-nascido Grenouille se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida.”(*2)
Amor e Vida, pulsação única universal, além do tempo e do nosso pequeno entendimento.
Grenouille recém-nascido contra o amor, passa sua trajetória na melhor das hipóteses como um farsante. Escolhera vida sem Vida.
E o desfecho, desta história enigmática fecha a mandala da sua existência.
Jean-Baptiste Grenouille rende-se. Retorna a sua origem - para por Amor, ser enfim consumado !
“...Embora o estômago lhes pesasse um pouco, seus corações estavam bem leves. Em suas almas sombrias havia, de repente, um clima eufórico. E em seus rostos repousava um suave brilho de felicidade, um brilho de donzela. Daí talvez o pudor de alçarem o olhar e se olharem nos olhos. Quando o ousaram, primeiro furtivamente e depois abertamente, foram obrigados a sorrir. Estavam extraordinariamente orgulhosos. Pela primeira vez, haviam feito algo por amor.”
Fim