06 março, 2018

Sofrimento

por Milene Siqueira


Eu sofro, tu sofres, ele sofre... 

E todos nós sofremos. Mas tá todo mundo fingindo de não sofrer, não mostrando que sofre e evitando o sofrimento. 

Às vezes a gente até acha mesmo que não sofre. Olha aquilo, olha fulano... e conclui: aquilo ali é que é sofrimento... A tal da comparação nos dá uma proteçãozinha pra gente continuar "levando".
E ok... a gente pode estar com saúde e se sentindo até que bem. Mas se a gente não coloca lupa no sofrimento, se só o estanca... daqui a pouco "do nada" surge uma doença, um problema que pega a gente de "calças curtas" (véio isso, hein! rs). E situações que a gente podia ter vivido e não viveu... o sentimento de se gostar do jeito que se é, de ter compaixão, perdoar, eliminar as mágoas, nem isso rolou! E pluft... a vida tá acontecendo e tá passando...

Mas cada um tem o seu quinhão de sofrimento, e se tira uma camada, e outra, e outra de máscara, o que encontraremos? Sofrimento. Daí tanto medo do vazio. E pra espantar esse medo, mergulhamos no entretenimento, na balada, no game, no outro, ou mesmo em coisas mais tranquilas como no trabalho, em uma causa social, por ex. Mas que no fundo é só medo de fazer contato honesto consigo. E aliviar o sofrimento do outro é mais fácil que ver o seu... 
Essa distração que até é inconsciente, dá infinitas possibilidades de maquiar as camadas. Não que tudo isso que citei seja ruim não... mas como o fazemos é que pode ser.

Mas na real... não adianta fingir, porque o sofrimento tá aí. E parece até proporcional ao número de selfies postadas. O provérbio pode ser trocado: "Diga como estão tuas selfies e te direi como tu estás".

Ok, e daí? Falar do meu sofrimento, resolve o quê? Responder que está meio péssimo no tudo bem, pra quê? Pois é... pra quê??? Já que o que vai acontecer é a conversa se prolongar e chover conselhos, e a maioria serão bem comparativos que só aliviarão... ou quem sabe pode até surgir de alguém uma luz. Mas eu também fico com o "tudo bem", pra não complicar (sinto uma falta de emoji aqui no blogger nessas horas...). 
Mas assumir a infelicidade serviria essencialmente pra UMA coisa, pra todo mundo se ligar que tem algo dando errado. E que ao invés de perder tempo maquiando o sofrimento, pode parar de reagir e começar a olhar essa nuvenzinha cinzenta como sendo aquela amiga que avisa que o corte do seu cabelo não está nada bom... E tá aí a boa sacada do sofrimento: transformação.
Se todo sofrimento é opcional, só se torna opção quando reconhecemos que ele existe.

A Kabbalah tem uma citação que cabe nesta reflexão:


 "o maior truque que o diabo já fez foi convencer o mundo de que ele não existe"

"...em nossa vida a força de Satan aparece na forma de ego, porque é o ego que ativa toda forma de comportamento reativo" (Yehuda Berg)

Pois é... ao invés de ficar com medo de um sujeito de 2 chifres, e de ficar espantando inveja com alho e sal grosso, não tenha medo e vá saber como age o ego. Porque se há sofrimento há apego, e se há apego (a coisas, pessoas e principalmente a ideias) há ego. Bom resuminho da tragédia. Porque não sofremos pelas pessoas ou coisas que estão dando errado na nossa vida, mas sim do quanto estamos reagindo. E por ignorância (falta de sabedoria) e dai mais "errado" elas vão acontecendo.

E o ego tem tantos disfarces... que quando achamos que o sacamos, ele ainda está lá dando gargalhada da gente. A boa notícia é que podemos rir também, por que o paradoxo é que ele existe, mas que não é real.

E nosso maior propósito aqui no planeta é se libertar desse domínio, deixá-lo no lugar que lhe cabe, sair desta ilusão. E nesse caminho inclui a aprender a olhar sua mente e a cultivar o mais relevante: a silenciar sua mente. Porque controlar a química do cérebro através do silêncio é essencial para controlar o domínio do ego. 

Bom, que tal aproveitar esse tempo de quaresma e começar a reconhecer a existência do sofrimento? E assim a dialogar com as formas de lidar com o sofrimento.
Dica essencial: contato com a natureza e quietude/meditação. Inclua também: oração e/ou mantras e estudos.
E assim de repente quem sabe... na Páscoa, eu, tu, ele e todos nós renascemos!






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