23 agosto, 2019

Descobrindo o Sagrado: Uma entrevista com Tenzin Wangyal Rinpoche

Tradução de “Discovering the Sacred: An Interview with Tenzin Wangyal Rinpoche”

O artigo a seguir é da edição da primavera de 2002 da Newsletter da Snow Lion e é apenas para referência histórica. Você pode ver isso no contexto da newsletter original em https://www.shambhala.com/wp/wp-content/uploads/2017/03/58.pdf


Hoje, muitos ensinamentos na tradição Yungdrung Bon são muito similares aos ensinamentos encontrados nas outras principais tradições espirituais Tibetanas — tudo desde visualizações elaboradas de deidades tântricas até a simplicidade e imediaticidade das meditações dzogchen. Contribuindo para a riqueza e profundidade da herança Bon existem as práticas xamanísticas, como cura e recuperação da alma, que carregam com elas um profundo respeito pela natureza e os espíritos que habitam nela, e que continuam a desempenhar um papel importante na cultura Tibetana.

De acordo com o proeminente mestre Bon Tenzin Wangyal Rinpoche, hoje, tantra Bon, dzogchen e xamanismo oferecem abordagens amplamente divergentes, ainda assim eles podem se apoiar mutuamente. Todos eles compartilham ao menos uma essência em comum: a visão integral da sacralidade dos cinco elementos: terra, água, fogo, ar e espaço.

Tenzin Rinpoche é autor de “Maravilhas da Mente Natural”, “Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono” e o novo “A Cura Através da Forma, da Energia e da Luz: Os Cinco Elementos no Xamanismo, Tantra e Dzogchen do Tibete” publicado pela Snow Lion Publications. Rinpoche tem sido fundamental na introdução dos ensinamentos e tradições Bon no mundo Ocidental desde 1988. O centro de seus esforços mundiais é a organização que ele fundou em 1992, Ligmincha Institute (Nota do Tradutor: A instituição agora é chamada “Ligmincha International”), em Charlottesville, Virginia. Centros e grupos de práticas afiliados ao Ligmincha agora estão localizados ao longo dos Estados Unidos, Rússia, México e Europa Oriental e Ocidental.

Aqui, em uma entrevista conduzida por Polly Turner, editora do “Sangha Journal”, Rinpoche fala sobre seu livro mais recente (N.T. “mais recente” na época da entrevista) e a relevância dos cinco elementos para o desenvolvimento espiritual da pessoa.


Snow Lion: Por que você escolheu escrever um livro sobre os cinco elementos?

Tenzin Wangyal: O propósito do livro é mostrar como a sacralidade dos elementos pode ser descoberta em todas as dimensões da experiência. Alguém pode experienciar o sagrado em si mesmo(a) em relação a estes elementos se conectando, ou experienciando, ou sendo. Os(As) xamãs se conectam com a natureza. O(A) praticante tântrico experiencia energia, e o(a) praticante dzogchen experiencia a qualidade de permanecer nas cinco luzes puras e cinco presenças puras.

Snow Lion: Como você define sagrado neste contexto?

Tenzin Wangyal: Sagrado significa qualquer situação onde você encontre algo que faça a experiência de você mesmo(a) mais profunda e mais próxima. Por exemplo, quando xamãs vêem uma montanha, a experiência que eles(as) tem deles(as) mesmos(as) se manifesta completamente em relação com a montanha e o elemento terra, e isto evoca devoção. A terra é onde coisas crescem, onde seres vivem. A força bruta desta terra não é apenas vista no espírito da mãe terra, é também respeitada como uma entidade superior e fonte de cura.

Para xamãs a terra é terra sagrada, água é água sagrada, fogo é fogo sagrado, ar é ar sagrado, espaço é espaço sagrado. A sociedade moderna perdeu quase inteiramente este significado na natureza. A terra é vista apenas como um lugar para comprar e para construir. Quando você está nas ruas da cidade de Nova Iorque, praticamente cada polegada é cimento sólido e pavimento — não há quase nenhuma conexão com a natureza lá.
O(A) xamã se relaciona com os elementos da natureza de um modo grosseiro, dualístico, muito orientado pelo espírito, mas ainda assim de um modo que é incrível e poderoso.
No tantra, através da visualização de sílabas e símbolos, canais e chackras, os mesmo cinco elementos são experienciados no corpo humano na forma de energia divina. Cada parte do nosso corpo é vista como um palácio do divino. Quando você vê desta forma, sente desta forma, relaciona-se desta forma, você têm esta dimensão sagrada de experiência.
É a mesma coisa no dzogchen, mas no nível da mente. No dzogchen, o(a) praticante trabalha com todos os elementos como luz. Na sua qualidade mais sutil, os elementos neste nível são cinco aspectos sagrados da luminosidade que, inseparavelmente unida com vacuidade, é a base de todas as coisas. No dzogchen os elementos também são associados com as cinco qualidades de sabedoria, ou cinco presenças puras. Por exemplo, o elemento água é associado com a luz azul e com a sabedoria do espelho. O elemento espaço é associado com a luz branca e com a sabedoria da vacuidade.

Snow Lion: É importante para um(a) praticante experienciar pessoalmente os elementos como estando em equilíbrio?

Tenzin Wangyal: Não há nada a ser experienciado em nenhuma dimensão que não seja composto completamente das interações dos cinco elementos. Diferentes elementos são associados com diferentes emoções, temperamentos, cores, doenças, estilos de pensamento, e assim por diante.
Alguém pode dizer que se os elementos estão equilibrados externamente, então alguém estará fisicamente saudável. Da perspectiva tântrica, quando elementos estão equilibrados, talvez internamente alguém sinta alegria, alguém sinta amor, alguém sinta compaixão, alguém sinta estabilidade e equilíbrio. Alguém experiencia todos estes mais espontaneamente. No dzogchen quando alguém tem equilíbrio nos elementos, alguém espontaneamente experiencia diferentes qualidades de espaço e luz. Grounding* (N.T. “conexão com a base”), flexibilidade, abertura, criatividade — todas estas qualidades são experienciadas como aspectos sutis da energia primordial da existência.
Geralmente, xamãs não tem um entendimento da visão do tantra ou dzogchen. E, um(a) praticante dzogchen ou tântrico(a) não necessariamente vai na “cabana de suar” e invoca o deus fogo, por exemplo. Mas em ambos dzogchen e tantra há definitivamente uma necessidade do calor interno para desenvolver as experiências despertadoras da claridade, e uma necessidade de experienciar o êxtase interior através do fogo.
Alguém se conecta em um nível bruto, alguém se conecta num nível mais energético, alguém se conecta em um nível mais puro de mente e luz.

Snow Lion: Como alguém pode saber se tem muito ou não o suficiente de cada elemento?

Tenzin Wangyal: No nível dos elementos brutos, o desequilíbrio pode manifestar-se claramente na dimensão física. Algumas pessoas com muito elemento terra podem ser gordas, por exemplo. No nível energético elas talvez se sintam preguiçosas, embotadas ou deprimidas. Psicologicamente ou internamente, pessoas podem ter tanto elemento terra que elas vão esquecer coisas, serão muito lentas, ou terão pouquíssimo progresso em seus desenvolvimentos pessoais ou espirituais.

O desequilíbrio dos elementos na perspectiva dzogchen é mais no nível muito sutil do indivíduo. Talvez alguém tenha falta de estabilidade na meditação, falta de consciência da conexão com a base, falta de concentração, falta de entendimento de sunyata. Talvez a pessoa é muito desequilibrada num sentido dos elementos no dzogchen, mas ele ou ela pode não perceber isto porque não há nada particularmente errado fisicamente ou psicologicamente.
Se há um monte de lugares no seu dia a dia onde você se sente confuso(a) ou entra em problemas, talvez seja por causa de uma falta de estabilidade e elemento terra — ou talvez é uma falta de criatividade, significando que você está com falta de elemento fogo. Ou talvez é uma grande falta de abertura — se você se sente desligado(a), basicamente é por causa de falta de espaço. Falta do elemento ar pode se manifestar como falta de flexibilidade. Ter muito de qualquer um dos elementos também pode causar problemas. Quando você vê os tipos de condições e qualidades que estão se manifestando, você pode olhar dentro de você mesmo(a) e entender as causas num nível mais profundo, emocional.

Snow Lion: O que faz este desequilíbrio acontecer em primeiro lugar?

Tenzin Wangyal: Em algum sentido, no começo de nossas vidas nós temos praticamente um equilíbrio dos elementos. Assim que nós saímos e encaramos o mundo, nós temos tantas experiências boas e ruins, desapontamentos e feridas. Nós temos tantas experiências intensas, mas nós não necessariamente temos um modo de processar elas. Como um resultado, estas experiências podem danificar algumas destas qualidades elementais. Talvez você tenha estabilidade e então algo trágico ou traumático acontece; a partir daí você apenas não se sente mais muito bem grounded* (N.T. “conectado(a) com a base”).
Se você tem uma experiência muito forte e é capaz de processar ela, ela não vai fazer nada com você. Ser capaz de processar significa que você pode sentir a experiência, mas ela não vai te causar dano. Ela não vai te mudar. Ela não vai te enfraquecer. Ela não vai fazer você perder algumas qualidades. Ser capaz de processar significa que ela vai te energizar. Você está claro(a) com ela. Em algum sentido ela pode fazer você crescer, fazer você expandir sua consciência, fazer você se tornar mais sábio(a) e mais compreensivo(a).
Não ser capaz de processar significa que ela vai te balançar. Se você é uma pessoa bem forte e você é acertado(a) por esta experiência, ela vai levar embora sua força. Talvez você estivesse feliz; quando você encara ela, ela vai levar embora sua felicidade. De alguma forma ela vai danificar aquela qualidade particular.
As cinco emoções negativas da raiva, desejo, ignorância, inveja e orgulho também são relacionadas com os elementos. Raiva é relacionada com o ar. Desejo é relacionado com o fogo, e assim por diante. Quando alguém é mais equilibrado(a), alguém pode ter mais experiências de amor. Quando alguém é desequilibrado(a) por causa de muito ar e falta de terra ou grounding* (N.T. “conexão com a base”), alguém pode ter uma experiência de raiva. Raiva é sentida como uma explosão pra fora, como ar soprando coisas para longe — você perde o controle. Esta é a experiência oposta da experiência de quando você fica deprimido(a), por causa de ter muita terra e não ter ar suficiente.

Snow Lion: Como alguém pode saber quando está se conectando de uma forma pura com os elementos?

Tenzin Wangyal: Enquanto você recupera os elementos que você precisa, no começo a sensação pode não ser óbvia. Mas, no tempo, isso pode mudar sua vida. Você pode ver que o modo como você se relaciona e o modo como você faz coisas são totalmente diferentes. Se você está ungrounded* (N.T. “sem conexão com a base”) e sentindo que você está bagunçando tudo na sua vida, após você fazer a prática para recuperar o elemento terra você se sentirá tão diferente, tão grounded* (N.T. “conectado(a) com a base”).
Você pode recuperar o elemento usando uma abordagem xamânica, uma abordagem tântrica ou uma abordagem dzogchen. O(A) xamã basicamente tenta entender a energia da terra, recebendo a qualidade do elemento terra da deusa da terra, o espírito da terra, ou se conectando mais com a terra bruta. Há muitas formas de práticas xamânicas. É o mesmo com práticas tântricas: Há meditação, contemplação, exercícios específicos para tentar controlar as qualidades dominantes do ar, fogo, e outros elementos. Práticas dzogchen envolvem simplesmente permanecer, ou ser, enquanto fundindo a si mesmo(a) com as qualidades mais sutis dos elementos.

Snow Lion: É crucial estar consciente dos elementos no momento da morte?

Tenzin Wangyal: Geralmente não há outro modo de experienciar além de através dos elementos. Adolescentes tem uma necessidade por um monte de fogo e ar, então quando eles são capazes de fugir e explorar novas experiências eles(as) sentem-se como se eles(as) estivessem no paraíso. Quando você está envelhecendo você precisa de mais dos elementos terra e água, associados com estabilidade e com conforto. Você não quer explorar muito, e você experiencia seu profundo senso de si mesmo(a) enquanto deitado(a) na cama ou no sofá. Então, durante épocas diferentes, estações diferentes, estados emocionais diferentes, você tem formas muito diferentes de se conectar com você mesmo(a) através dos elementos.
Da mesma forma, durante a dissolução dos elementos no momento da morte nós temos a oportunidade de experienciar nosso verdadeiro eu. Nós sempre experienciamos a nós mesmos(as) através de elementos grosseiros. Mas, através da experiência da morte, enquanto a terra se dissolve na água, água no fogo, fogo no ar, e ar, por fim, no espaço, a experiência dos elementos naturalmente se torna mais e mais sutil. Para atingir a liberação no bardo, uma pessoa aspira experienciar a si mesmo(a) durante o processo inteiro de morrer, mantendo clara presença nas formas sutis dos elementos e na forma mais sutil dos elementos como luz, e até na clara luz do espaço.
Manter esta presença através destes níveis de experiência é muito difícil. Então é por isto que é importante se familiarizar com as práticas dos elementos, e ter entendimento, conhecimento e experiência.

Polly Turnen é uma aluna antiga de Tenzin Wangyal Rinpoche e editora do “Jornal da Sangha: Trazendo as tradições espirituais tibetanas para a vida”, uma nova publicação bimestral que provém apoio e inspiração para praticantes de meditação de Budismo Tibetano e Bon.]


Texto original em inglês disponível em: https://www.shambhala.com/snowlion_articles/discovering-the-sacred/ republicado de : https://medium.com/@andarolhar/descobrindo-o-sagrado-uma-entrevista-com-tenzin-wangyal-rinpoche-232cc4d66a93

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