30 novembro, 2016

Completude

por Milene Siqueira

O observador é o observado.
Jiddu Krishnamurti

Imagine sua mente como um quebra-cabeças, você pega uma das pecinhas e a analisa. Aquela pecinha a sua frente que você examina, discute e interpreta, é uma pecinha que se separou do todo. 
A mente é como uma tesoura: fragmenta, separa. Essa é a sua função, que na vida prática funciona muito bem, mas que na vida psicológica não teria a mesma necessidade.

Nossa sombra é pequena. 
Do tamanho de uma criança.

Quando nascemos ainda não somos mente. Mas durante o crescimento e em toda infância nossa mente vai se desenvolvendo, e igualmente vai "recortando", vinculando e colecionando "faltas". Podemos crescer e nem nos darmos conta que o grande problema que vivenciamos tem a ver com as faltas sofridas. Principalmente aquelas que irão se repetir com a mesma temática.
A "falta" pode ter sido sentida pela ausência de convivência com o pai ou mãe, falta de cuidados, limites, alimento, educação, ética, segurança, confiança e por aí vai. Resumindo, a criança só sabe receber e vai colhendo experiências, e no que não pode estabelece a falta. E tem as faltas ocultas, que ficam em camadas bem mais subterrâneas do nosso inconsciente, pois nem se quer tivemos ciência delas um dia, como os segredos de família. Mas a sentimos. 

Aí na vida adulta vamos encontrando através das pessoas e das situações os mesmos "recortes" que fizemos. As figuras serão novas, mas o formato dos recortes é bem antigo. Cada situação traz consigo uma nova possibilidade de integrar o recorte à sua unidade.

Normalmente queremos nos livrar de todo tipo de problema. Resolver. Krishnamurti dizia que qualquer tentativa de solução no campo psicológico não resolve. Podemos ter um certo alívio por um tempo, podemos trocar de "figura", e também nisso tudo há a grande chance de criar novas peças-figuras. Mais figuras e mais confusão. Desejar resolver só alimentaria a confusão. Enquanto você tenta resolver com a mente, você reforça o olhar para a peça separada. Fortalece, dando mais energia a cisão. Todo conflito permanece ou retorna pela continuidade desta separação.



"Você não precisa de soluções, precisa de clareza"
Osho

Só quando você observa que o problema que você vê ou sente, é você mesmo (ainda que seja das memórias presas ao campo do seu sistema, DNA, vidas passadas - a interpretação que tiveres); quando observa que essa pecinha está simplesmente fora de seu lugar -  sem necessitar de reparos ou de sumir da sua vida - mas apenas ser integrada, é que então será possível tornar inexistente o conflito.

Isto é similar a filosofia do Ho'oponopono (método de cura Kahuna). Ao imaginar à sua frente a pessoa ou situação de conflito que está em seu ambiente, e dizer sentindo de coração: "sinto muito, me perdoe, te amo, sou grato", você estaria acionando a espiritualidade (ou a Presença/Ser/Luz) a atuar e integrar a pecinha solta. 


No processo do Ho'oponopono você também pode imaginar a si mesmo, partes do seu corpo que doem, do seu emocional, suas dificuldades. Não interprete muito, lide com os fatos.


O "recorte" é uma crença de separação (de crença no mal) ilusória. Similar a uma miragem, a situação-figura não importa tanto. Sendo assim, você não precisa buscar a situação de origem. Cada nova situação de repetição traz consigo o reflexo da situação/"crença" original. Se for necessário, as situações primárias irão se abrindo, através de revelações ou de sonhos. E aí você pode continuar o processo do Ho'oponopono através do que lhe for sendo mostrado.

Claro que para a mente-ego separatista isto tudo é incompreensível, sem lógica. A mente só pode acessar a um fragmento da questão, e tende a ver de forma egoísta. Não peça da mente o que não lhe compete. Coloque-a no seu coração!

Não precisamos de técnicas para unir, mas elas facilitam. Ho'oponopono, EFT, meditação, orações, florais, óleos essenciais, mantras, entre outros... são puros canais de abertura do coração.


Lembre-se que o amor incondicional que é a unidade, a tudo integra. E para tanto precisa estar livre da mente-ego: se isentar de julgamentos, comparações e do excesso de interpretações. Deixe de sustentar crenças no mal. Diminua o fluxo de pensamentos.
Pode ser que sua mente insista em lhe lembrar das mágoas e desavenças. Deixe-a lá. Não dê energia ao assunto nem mesmo repreendendo-se por lembrar, só continue no coração, abençoando. 
Quando olhar para as pessoas que lhe magoaram, lembre-se que todos tiveram seus condicionamentos (incluindo você). Veja as pessoas como se fosse a primeira vez, sem pré-conceitos, as veja no Aqui e Agora, sem a cisão do passado entre vocês. Lembre-se do fato de que o observador e o observado são um só, não separe novamente. Una!

O Reino nunca esteve distante, sempre esteve no Aqui e Agora:


"Jesus viu crianças de peito a mamarem. 
E ele disse a seus discípulos: Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. 
Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? 
Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, e o exterior como o interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino - então entrareis no Reino."
  
Evangelhos Apócrifos - Tomé







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