06 abril, 2012

Erramos? - Trilhando no entendimento do erro e do perdão

por Milene Siqueira


Julgamos que erramos. Por falar, por não falar. Por agir, por não agir. Por ter escolha, ou por não ter.
Imaginação, regras morais, sociais e teológicas martelam em nossa mente: certo ou errado?

Se o certo é um caminho, seria o erro outro caminho?
Diferentes caminhos? Distintos destinos?

Entre erros, caminhos e filosofia, lembrei Clarice Lispector:
"O meu erro deve ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a verdade fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho". 

O certo é pequeno demais para uma Clarice. É o "erro" a sua verdade capaz da dimensão, do outro... Das respostas que ainda lhe serão reconhecidas, outras tantas verdades... Redescobrir-se saindo de si, "precisando" errar! Este erro da Clarice é uma audácia, uma permissão da não lógica. É acolhido. Nem erro é... é tropeço, que a faz saltar no caminho de verdades. 

Verdade...
Se realidade - como contrária a ilusão -, é a verdade e é tudo o que é certo, portanto vejo que erro não é outro caminho.

No meu coração, bem que tentei ver dois caminhos, o do certo e do errado, não consegui. Só vi um... onde tudo está sempre "certo"! E onde os supostos erros e acertos fazem parte de qualquer caminho.


Caminho de perfeição... se não fosse a mente a discordar...


Separamos o erro! Nossa mente separa, é da sua natureza.
Nessa separação, o certo se parece com ganho. E o erro, com perda.

Ah, perder... como é difícil perder... Você só não sabe, como sente a emoção que é a ideia da perda: grudenta, repetitiva, sufocante, pesada. Não desejamos perder porque o ego não sabe lidar com a perda, uma vez que tem a ilusão da posse.

O ego teme a perda, principalmente de tempo. 
Tempo, tempo... que no mundo do eu essencial não se perde, o tempo perdido é o da matéria. E no tempo da manifestação na matéria, enquanto você estiver em apego ao erro, continuará como um perdedor na área afetada. Porque você sempre atrai mais daquilo que acha que “tem”! Se você não desapegou do erro, você o tem, o carrega! E como o erro é originariamente inexistente, o que você experimenta é a "falta".

Ainda mais pesado, o mais duro dos nomeados erros é o "pecado" - que é a sombra mais densa dos nomes ligados ao erro que o homem já nomeou. Apenas nomeados... certo-errado – inexistentes aos olhos do Todo -  são contrastes no mundo da matéria.

A memória mantém a lembrança do erro, achando que poderia ter sido diferente. "Diferente"... separando... abrindo mais uma fenda sobre a ferida. Criamos vínculo, história, identificação, vitimismo, dor, e assim vamos culpando e ferindo.
Castigo? Não. Não é o Criador a nos punir, somente nós é que o fazemos.
  
Doar além

Per donare. Do latim, per = além, + donare= doar. 

Se é da natureza da mente separar, distinguir, a do coração só deseja unir. Há uma insatisfação do coração, quando o pensamento crê na perda, já que seu desejo eterno é o da unidade. 
O seu sentimento, o amor, é igual a totalidade. Abrangente. O amor com sua luminosidade, anula o erro. E aí existe um temor do ego: 

Se na resistência, a cura da perda é o perdão, na ilusão da posse do ego perdoar é perder o erro que se "tem". O problema agora não é mais o erro, mas ao que, ou melhor, a quem ele vincula! A perda está geralmente associada a uma ligação de afeto (incluindo a si próprio, como se colocar superior em uma situação inadequada). Às vezes são tantos anos, que nos acostumamos com a imagem, até com a densidade que nos faz companhia. Resultado: você não quer perder a ligação, não doa. 
Não são os grandes eventos de erros e de perdas, mas são os menores, os detalhes que podem  conter grande atribuição de mágoa ao ego: pode ter sido a falta do olhar de alguém, não achar que esteve à altura para retribuir um afeto ou ocupar um cargo, amores perdidos, abandonos, ofensas, desordem familiar, achar que fez menos ou mais do que devia. Cobranças...

Mas a vibração do universo é bem clara, onde é só dando que se recebe, doando que se ganha. Abandonando as pretensões é onde se encontra a paz. 
Além do que, não perdemos como a mente imagina! Simplesmente porque não podemos perder, se nunca possuímos nada de verdade, nem ninguém; e o paradoxo é que sempre tivemos tudo. Todas as relações de afeto estão e continuarão em você. Doando, perdoando, você anula o erro, o apego e as faltas, se desfaz a ideia da separação.

Doar além... A oração mais conhecida exige equivalência: perdoai assim como perdoamos. É preciso reconhecer a limitação e imperfeição da condição humana, em paralelo ao reconhecimento de sermos todos originariamente perfeitos em essência!

Se considerar o erro grave, procure um orientador espiritual, confesse, receba a orientação e o perdão, e esqueça (doe de verdade!). Entender, esquecer, tirar a importância, perder a identificação, disso é feito o perdão.

 A vida está acima das nossas escolhas, ela é soberana e perfeita

Tudo é vida.
Se como humano, me limito e acho que errei e que perdi, perco para as mãos da Vida que abrange a tudo, e então está sempre tudo certo. 
Aqui-agora, liberto a mim e aos outros. 
Retomo o fluxo da paz e da prosperidade.
Se meu desejo é o de acertar, este é o reconhecimento
 interno do único caminho real, que é onde agora me coloco.
Me teço na grande e harmoniosa teia da vida, onde estamos todos sempre conectados.
 ______________

Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz. 
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, 
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, 
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, 
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles


Para maior compreensão, leia também : Nossos ais... são emocionais!


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