19 abril, 2022

Ego

          "Compreender a natureza do ego e seu modo de funcionamento é

de uma importância vital se desejarmos nos libertar do sofrimento."


~Matthieu Ricard



por Milene C. Siqueira


Ego é uma palavra de origem latina que significa "eu". É um termo principalmente Psicanalítico, "freudiano", para o centro consciente. É tanto o que media, o que decide entre id (instintos, prazer imediato) e superego (valores morais, limites, censura), quanto o que integra essas duas instâncias. Um ego dito forte, pela psicanálise, seria um melhor equilíbrio entre id e superego - ou seja, uma boa administração do ego entre desejos e realidade.


O ego vai sendo formado pela interação dos cuidadores (em geral, a mãe) e do ambiente, constituindo aos poucos - junto a tudo que vai sendo rechaçado (sombra/conceito junguiano) - uma persona. O ego é basicamente o ego do outro refletido em nós. E que continua pela vida sendo reforçado nas relações, e só é minimizado (ou expandido na consciência) quando pode ser observado, movendo-se no eixo do ponto fixo.


Nas filosofias e religiões vamos ouvir as mais diversas opiniões sobre a palavra ego, ou referências similares como eu, eu pessoal, eu inferior, eu menor, eu falso. E também vilão, inimigo, demônio, etc. E vai desde a recomendação para eliminação, dissolução, anulação até a integração, transcendência.


Mas como anular, eliminar ou transcender o que nem reconhecemos?

Aliás, quem teria interesse em eliminar o ego que não o próprio ego?

Matar, eliminar e mesmo lutar contra o ego não são condições possíveis. E até se diz que não dá para matar aquilo que nunca de fato nasceu.


Integrar e transcender são palavras mais adequadas ao tratamento do ego. Porém, não há integração e transcendência sem reconhecer, sem investigar a existência de um eu que não é "encontrável", permanente, mas sim transitório e interdependente.


O ego é uma estrutura importante, sem ele não teríamos como e nem para o que observar. E não o teríamos como facilitador da expansão da consciência. Porque é também através do ego, como centro da consciência, aquele que é capaz de elaborar os conteúdos do inconsciente - no ambiente analítico - através de recursos como a fala, escrita, arte e meditação (analítica principalmente). Sem o instrumento que é o ego, também não estaríamos aqui lendo e discernindo.


O nosso problema com o ego é a exagerada identificação ao eu, que ativa mecanismos de defesa (projeção, racionalização, fantasia, etc). É quando estamos servindo ao ego, ao invés dele nos servir.


E paradoxalmente, embora o ego tema "morrer", ele está também na busca da sua ausência.

Poder ser espaço - ou buscar apoio para - é observar a composição das crenças estruturais e poder sair do jogo de ganha e perde, das comparações, do julgamento, do egoísmo/autocentramento, da cobiça, inveja, do sofrimento, da separação, e da constante luta interna entre o querer (desejo) x o poder (realizar).



"Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho,

infinitamente amigos, o ego e o Eu habitam o mesmo corpo.

O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida;

o segundo tudo vê em seu distanciamento."


~Mundaka Upanishad






28 março, 2022

Avalon

 


A terra mística de Avalon foi imortalizada no ciclo Arturiano, o mais conhecido herói celta, e em torno dela realidade e ficção se confundem envolvendo em brumas a história do lugar.

Avalon se situaria a sudoeste da Inglaterra, no local onde há o monte chamado Tor e a Abadia de Glastonbury. O Monte do Tor é envolvido por brumas, e o próprio nome Tor significa “passagem”.

Nas antigas lendas celtas, existia a Ilha dos bem-aventurados, algo como os campos Elísios dos Gregos ou o Valhalla dos germânicos, local de abundância e alegria. Com o passar do tempo a visão desta terra se fundiu com a lenda de Avalon, visto que era uma ilha cercada por brumas, de difícil acesso, e por ser imaginada como um paraíso, a terra das maçãs, que representam para os celtas o conhecimento e a magia.

Avalon também está associada à Terra da Juventude, um reino mítico no qual os habitantes são imortais.

Na versão mais conhecida e consagrada no clássico “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley, Avalon era uma ilha cercada por brumas que somente uma sacerdotisa poderia afastar para descobrir o caminho até a ilha, lá era o refúgio da antiga religião que foi reduzida pelo catolicismo.

Fonte

18 março, 2022

O Perfume , Patrick Süskind


Ouça trechos aqui no podcast:

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Quem pouco conhece sobre óleos essenciais, acaba tendo uma visão restrita, quando não incompreensível do filme O Perfume. 

Convido a esta instigante viagem sensorial, com trechos desta maravilha literária do alemão Patrick Süskind.

por Milene Cristine Siqueira

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O Perfume mostra a fixação do personagem Jean-Baptiste Grenouille em conseguir - à primeira vista - identidade, amor e domínio. Mas não era qualquer domínio, nem qualquer identidade, nem qualquer amor...

 “...Queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”

Grenouille entusiasma-se com esse objetivo ao sentir o aroma de uma jovem ruiva, aquela a quem entre tantos cheiros, ele - com sua capacidade olfativa singular -reconhece ser o aroma da Perfeição: 

“...Este perfume tinha frescura; não era, porém, a frescura das limas ou das laranjas, a frescura da mirra ou da folha de canela, ou da hortelã, ou das bétulas, ou da cânfora, ou das agulhas de pinheiro, nem a de uma chuva de Maio, de um vento gelado ou da água de uma nascente... e continha simultaneamente calor; mas não um calor semelhante ao da bergamota, do cipreste ou do musgo, nem ao do jasmim ou do narciso, nem ao de um bosque de rosas ou de íris... Este perfume era uma mistura de ambos, do que passa e do que pesa; não uma mistura, mas uma unidade, e, além disso, humilde e fraco, e, no entanto, robusto e resistente como um pedaço de seda fina e brilhante... e, todavia, não como a seda, mas antes como o leite com mel onde se molha um biscoito, o que nem com a melhor das boas vontades se conjugava:leite e seda! Incompreensível este perfume, indescritível, impossível de classificar! Não deveria, na realidade, existir. E, no entanto, ali estava com a mais absoluta das obviedades...” (*1)

Eu li o livro em 1995, e a cena grotesca do nascimento de Grenouille sob a mesa de limpar peixes na Paris de 1738, era tão vívida em minha lembrança tal qual o filme mostrou, quando o assisti em 2007.

A cena do nascimento deve ser proposital, pois é fato de que o corpo humano em excitação sexual exale um odor similar ao de peixes e mariscos. Grenouille será o primeiro dos outros quatro filhos nascidos na mesma situação que irá nesse ambiente podre e fétido - em meio ao lixo e peixes em decomposição - jogado na sombra e no cheiro da vida que fenece, sobreviver.

Nesse ambiente onde se mesclam o cheiro da fertilidade e da morte, Grenouille nasce com uma capacidade olfatória singular e a usará como o usa um animal predador, ou menos, pois Süskind o compara a um... carrapato.

 “...O grito depois do seu nascimento, o grito sob a mesa de limpar peixe, o grito com que ele se tinha feito notar e levado a mãe ao cadafalso, não fora um grito instintivo de compaixão e amor. Fora bem pesado, quase se poderia dizer um grito maduramente pensado e pesado, com que o recém-nascido se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida. Nas circunstâncias, isto era possível sem aquilo, e, se a criança tivesse exigido ambos, então teria, sem dúvida, fenecido miseramente. Também teria podido, no entanto, escolher naquela ocasião a segunda possibilidade que lhe estava aberta, calando e legando o caminho do nascimento para a morte sem esse desvio pela vida, e assim teria poupado a si e ao mundo uma porção de desgraças. Mas, para se omitir tão humildemente, teria sido necessário um mínimo de gentileza inata, e isto Grenouille não possuía. Foi um monstro desde o começo. Ele se decidiu em favor da vida por pura teimosia e maldade.”(*2)

Grenouille ainda irá sobreviver em vários episódios narrados no livro. “...Tinha a resistência de uma bactéria”  - o que justifica a aparência de frágil, manco, com cicatrizes e escoriações que apresenta o personagem no filme.

Grenouille tem um olfato incomum, mas não possui cheiro!

Para os personagens que faz contato, deixa sempre um rastro destrutivo“...devorava tudo, absolutamente tudo e absorvia tudo”.

Uma pena que no filme não se conte a história de Madame Gaillard, do padre Terrier, nem das amas que o rejeitam, pois “ ...ele suga-lhes até os ossos...” , do fato incomôdo de que Grenouille causa à todas as pessoas que são invadidas (cheiradas) em suas emoções mais profundas. Da estranheza que causa, afinal não é possível 'cheirar' quem é Grenouille.

Até que finalmente encontra Madame Gaillard com seu nariz torto:

 “...Quando era ainda uma menina, o pai batera-lhe com um atiçador na fronte, mesmo por cima do começo do nariz e ela perdera o olfato, juntamente com toda a noção do calor ou da frieza humanos e da paixão em geral...”

E assim, lhe é aceitável em seu orfanato, até que mais tarde Madame Gaillard começa a notar em Grenouille diversos poderes “...sobrenaturais”, como saber (cheirar) quando as pessoas estão chegando. Até o medo maior de que ele também descubra seu dinheiro guardado, e assim trata de livrar-se dele.

É fato que a primeira vez que assisti ao filme, não notei alguns detalhes, nossos olhos acabam ficando receosos, sobretudo dos assassinatos. Tem muitas cenas escuras, pois além da época, a claridade dá o contraste – como morte e vida - a luz revela os belos campos de lavanda ou o verde das montanhas.

Há uma cena memorável do perfumista Baldini, interpretado por Dustin Hoffman, que viaja no atemporal em cores, leveza, amor e frescor ao sentir um perfume elaborado por Grenouille.

 “...Baldini cerrou os olhos e pôde ver nele despertadas recordações das mais sublimes. Viu-se caminhando, jovem, por jardins, à noite, em Nápoles; viu-se deitado nos braços de uma mulher com negras franjas e viu a silhueta de um ramalhete de rosas no peitoril da janela, pela qual soprava um vento noturno; ouviu pássaros cantando e, de longe, a música de uma taberna; ouviu coisas sussurradas bem pertinho do seu ouvido, um eu-te-amo, e sentiu como seus cabelos se eriçavam de puro deleite, agora! Nesse instante! Gemeu de prazer....Era algo de inteiramente novo, capaz de criar por si todo um universo, um universo maravilhoso e luxuriante e logo se esquecia o que o mundo à volta possuía de repugnante. Uma pessoa sentia-se rica, livre e boa... Os cabelos eriçados do braço de Baldini se deitaram e uma sedutora paz de espírito dele se apossou...”

Grenouille só irá perceber que não cheira a nada bem mais tarde, quando se retira nas montanhas, lá onde até então pensara ser feliz, no lugar onde não haviam comparações...

Numa cena do filme, Grenouille passa por cães de guarda, que dormem, sem ser de forma alguma notado – aparecendo mais nitidamente aos nossos olhos como se sente: um fantasma.

 “...Desde jovem estava acostumado a que as pessoas que por ele passavam nem sequer tomassem conhecimento, não por desconsideração — como uma vez havia acreditado — mas porque não notavam a sua existência. Não havia espaço algum em torno dele, nenhum impulso de onda que ele, como as outras pessoas, emanasse na atmosfera, nenhuma sombra, por assim dizer, que ele tivesse podido projetar sobre o rosto das outras pessoas.” 

Não é contado no filme, mas a primeira possibilidade de Grenouille ser notado é quando formula para si um perfume com cheiro humano, o cheiro superficial, mas o suficiente para enganar as pessoas – consegue ser “visto”! Inclusive, Grenouille usando desse artifício melhora sua postura corporal.

Só que a partir daí... Grenouille tem uma ideia que lhe faria mais do que um igual...

Em Grasse, de posse das essências (almas) das jovens, Grenouille finalmente irá elaborar “O Perfume” na cena mais surpreendente do filme.

A cena na Place dus Cours onde seria executado, que vista sem entendimento irá parecer completamente desprovida de sentido - como nada além de uma grande orgia - é o contexto aqui descrito:

 “.... seria capaz de criar um odor que fosse não só humano, mas sobre-humano, um odor angélico, tão indescritivelmente bom e com tanta energia vital que quem o cheirasse ficaria enfeitiçado, ficaria sob um encantamento, tendo de amar de todo o coração a Grenouille, o portador desse fantástico aroma. Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até o sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar e gritar, chorar de prazer, sem saber por quê, cair de joelhos — isto é que deveriam fazer como sob o incenso frio de deus, só por chegarem a cheirá-lo!”

Grenouille revestido de toda aura aromática de apenas uma gota do “Perfume”, transmuta-se para as pessoas em Anjo ou na personificação do melhor que elas crêem. Diferentemente do que parece, as pessoas não se desnudam com o olhar da moralidade com o qual podemos assistir. O “Perfume” é a descrição da primeira jovem (*1), o aroma da união dos opostos, da totalidade, da Unidade!

As pessoas entram no seu paraíso pessoal, numa nuvem espiritual que toma todo o ar, só há a embriaguez do êxtase para respirar... da liberdade, da alegria, da inocência.

E desprovidos de qualquer razão, e portanto dos preconceitos, do julgamento, do Bem e do Mal, de um passado e de um futuro, transcendem como podem, profano e sagrado são um só, buscando através dos seus corpos também ser Um - inebriados dão-se, acolhem-se, fundem-se. É a alegoria de um arrebatamento indescritível, nos dando uma mostra à semelhança dos aromas mais sutis na natureza, que são pura onda de energia vital/sexual!

O pai de Laure, Richis, vê a legitimidade em essência de sua filha, aromaticamente vestido em Grenouille.

 “...O olhar de Richis pousava sobre ele. Amor infinito havia nesse olhar, delicadeza, comoção e a profundidade oca, boba, de quem ama.”

Grenouille num primeiro momento comemora seu feito, ri, vive o grande triunfo. Mas não demora muito para ir do êxito ao fracasso, cair em si e derramar uma gota de lágrima. Proporcionara às pessoas a embriaguez do Amor, mas ele, Grenouille, começa a se sentir mal, sufocado da falta de si mesmo.

Frustrado, começa uma caminhada de volta à Paris. Com o Perfume no bolso, sabe que detém de um poder que lhe pode proporcionar qualquer coisa, pois faz as pessoas amarem. Mas já nada importa, pois sabe que com toda riqueza e todo poder que poderia ter, nada disso lhe faria ter seu próprio cheiro e então ser alguém, e mais que ser alguém para os outros, agora percebera o mais importante  “...não podia cheirar a si mesmo e, por isso, jamais saberia quem ele era”.

E constata sobre o Perfume, e seu próprio paradoxo “...o único que alguma vez o reconheceu em sua verdadeira beleza fui eu, porque eu mesmo o fiz. E ao mesmo tempo sou o único a quem ele não pode fascinar, não pode deixar fora de si. Sou o único para quem não tem sentido.”

Quando Grenouille relembra a cena da praça, pensa: “...As pessoas, no entanto, acreditavam que desejavam a mim, e o que elas realmente desejavam permaneceu um segredo para elas.”

Grenouille chega à Paris, ao mesmo local do seu nascimento, ao mesmo cheiro.

Mistura-se ao redor de uma fogueira - como sempre sem ser notado - entre os ladrões, prostitutas, assassinos, desesperados, famintos. E ali derrama em si todo o conteúdo que carregava do “Perfume”, e após um momento de maravilhamento das pessoas, é por elas devorado.

Grenouille atira contra ele a arma mais poderosa que tinha em mãos, o Amor.

Saindo de Grasse, Grenouille havia decidido morrer. Já tinha experimentado viver com as pessoas e se refugiado delas, e nem uma ou outra ideia lhe agradava. E sua decepção o fez saber que o reconhecimento desejado era uma ilusão.

Caira na própria armadilha, o “Perfume” na Place dus Cours também distinguira o que havia de mais profundo no coração de Grenouille...

 “...O que ele sempre havia desejado, ou seja, que as outras pessoas o amassem, tornava-se, no instante do seu êxito, insuportável, pois ele mesmo não as amava, mas as odiava. E de repente soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão-somente no ódio, no odiar e no ser odiado.”

Grenouille descobrira que o amor das outras pessoas não lhe trazia satisfação, não só porque não era atribuído para ele próprio, mas porque não amava as pessoas, e a satisfação do amor, é amar! A possibilidade de sua sobrevivência sempre fora na ausência do amor. Conclui que o sentimento que o mantém é unicamente o ódio.

“...Uma vez, uma única vez, queria ser considerado em sua verdadeira existência e receber de outra pessoa uma resposta ao seu único sentimento verdadeiro, o ódio.”

 Grenouille caminha pela história em personificação de como na maioria das vezes caminha - dentro e fora - o Mal. Nas sombras, imperceptível, inodoro, mas incômodo, sugador, destrutivo, disfarçado, invejoso, egoísta.

A obra de Patrick Süskind primeiro nos convida à uma viagem fora da lógica, e nos conta muita coisa, muito mais que a história de um assassino... metáforas ao mal, ego, identidade, poder, manipulação, pureza, carisma, inocência, desejo. Seu cenário desvenda um pouco desse universo de aromas, dos óleos vegetais, da destilação à vapor, enfleurage, das notas olfativas, da vibração etérea que os óleos essenciais exercem. E nas entrelinhas conta-nos de Espírito, Unidade, Presença, Insights, Amor... porque sua obra tem o tema “Essência” !

Talvez Süskind se sinta como seu personagem “...Os outros só se submetem ao seu efeito, sim, nem se quer sabem que se trata de um perfume o que sobre eles atua e fascina.”.

 “O Perfume” é sinônimo de “O Amor”.

Como cita: “... a temível beleza”, a fragrância do Amor Maior. A centelha divina e viva além da matéria.

Patrick Süskind, ao meu ver, faz uma genial metáfora na história de O Perfume criando um elo essencial entre Vida e Amor:

 “...recém-nascido Grenouille se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida.”(*2)

Amor e Vida, pulsação única universal, além do tempo e do nosso pequeno entendimento.

Grenouille recém-nascido contra o amor, passa sua trajetória na melhor das hipóteses como um farsante.

Escolhera vida sem Vida. E o desfecho desta história enigmática fecha a mandala da sua existência com a "morte" do ego.

 Jean-Baptiste Grenouille rende-se. Retorna a sua origem - para por Amor ser enfim
consumado!

 “...Embora o estômago lhes pesasse um pouco, seus corações estavam bem leves. Em suas almas sombrias havia, de repente, um clima eufórico. E em seus rostos repousava um suave brilho de felicidade, um brilho de donzela. Daí talvez o pudor de alçarem o olhar e se olharem nos olhos. Quando o ousaram, primeiro furtivamente e depois abertamente, foram obrigados a sorrir. Estavam extraordinariamente orgulhosos. Pela primeira vez, haviam feito algo por amor.”

 

Fim 

07 março, 2022

O Sofrimento e o "Gutemberg"

Esse texto pode ser ouvido também no podcast Sentidos


Às vezes eu penso que o sofrimento, ainda é igual àquela minha primeira semana no Gutemberg.

O pré já foi um desafio, mas nada comparável a Johannes Gutemberg – que era o nome da escola onde fui cursar a primeira série. Acho que fiquei semanas imaginando o quão terrível seria ir para aquela escola. Romper as horas que eu passava com minha mãe, ou brincando em casa ou na rua com as amigas.

Aquela escola era o pesadelo, era longe, paredes e escadas de concreto cinza. Janelas estilhaçadas, muros pichados. O cheiro esquisito e entorpecente que vinha da cozinha até hoje não saiu do meu nariz. Me lembro de olhar com nostalgia pelos buracos da janela, sonhando em voltar para casa, com saudades de tudo, enquanto a professora tava lá explicando as letrinhas.

Até que não demorou muito e eu dei uma leve surtada...  Com muito choro... me recusei a ficar naquela escola. Daí, veio a professora me acalmar e ela teve um plano... me colocar como primeira da fila e me deu a tarefa de recolher todos as cadernetas para serem carimbadas com presença – todo dia então eu teria essa responsabilidade. E assim foi... que me dando algum sentido para ir para escola, que arduamente consegui terminar aquele ano até finalmente sair de lá. Da segunda à oitava série, foi quase o paraíso, tinha amigos, a escola era mais perto, bem arrumada e com jardim – foi uma obra do Maluf na época.

No segundo grau, fiz técnico numa escola bem disputada. Foi complicado de novo romper vínculos, muitos não davam conta e saiam. Mas na sala cada um tinha vindo de uma escola, poucos se conheciam, e nisso nós fomos formando bons vínculos nesse primeiro ano. Mas eu suava frio em toda aula de matemática. Já no segundo e terceiro ano, nos dividiram, e pouco podíamos conversar porque viramos salas concorrentes, dentro dos trabalhos que seriam desenvolvidos. Foi outro ano bem difícil, além de estudar de noite, a maioria trabalhava e chegava esgotada na escola. Era todo mundo bem independente e tinha uma frieza coletiva. Meus maiores vínculos afetivos tinham virado ocupados e concorrentes! Me deprimi horrores nesse ano.

É assim o sofrimento. Porque somos seres interdependentes, seres de vínculos. Tudo ao nosso redor nos faz. Paredes, texturas, cores, cheiros, imagens, vibrações, sons, pessoas, tudo ao redor.

Desastres, guerras, separações, perdas, mortes, pandemias, preconceitos, discriminações, desmatamentos, poluição. Tudo que nos divide, causa medo, sofrimento e dor.

E nesse sentido podemos minimizar sofrimentos, o quanto mais soubermos sobre interdependência. Podemos ser mais conscientes em fazer escolhas, e em tornar o mundo um lugar mais bonito, limpo, unido, acolhedor e pacífico. Tarefa nossa a de cultivar jardins tanto externos quanto internos.



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A Graça da Vida





Data estelar: Sol e Júpiter em conjunção; Lua cresce em Áries.

A Graça toda da vida reside em que, apesar de existirmos no exílio dela, convencidos de que tudo por aqui seja uma desgraça, continuamos em busca dela, porque inconscientemente sabemos que não somos nada sem Graça, e sabemos também que, apesar de todas as complicações e encrencas em que nos metemos, quando confiamos incondicionalmente na Graça da Vida, e nos entregamos alegres e despreocupados a ela, eis que acontecem os milagres.
Todas nossas complicações e perrengues derivam de nossa falta de entrega confiante aos mistérios da Vida, tentando estar no domínio, mesmo que, no íntimo, saibamos que não dominamos coisa alguma.
Confiantes de que a Graça da Vida nos protege, ampara e promove subsídios para que brinquemos à vontade nos campos infinitos do Universo, nos transformamos em pessoas alegres, bem-dispostas e amorosas, tratando compreensivamente todos os semelhantes e diferentes.
Mas, porque viciados somos em desgraça, acabamos passando muito mais tempo nela.


Oscar Quiroga



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17 fevereiro, 2022

Ao Mistério

 





Quando permitimos que aconteça o bem, aquilo flui, e é como se fosse um tempo vivido com todo o significado de amor do mundo.

No momento em que estamos ligados ao outro e dizemos, do fundo do nosso ser, da nossa essência, 
"que aconteça o melhor", isso é poderoso.

Ana Claudia Quintana Arantes



Hoje faz um mês que você se foi do plano físico... e ontem foi lua cheia de novo... e agora acho que sempre vou lembrar de você também quando olhar a lua cheinha...

É curioso como a perspectiva de tudo vai aumentando a cada dia, e mais e mais significados vão se compondo no belo... 

Hoje ouvi uma gravação que tinha te enviado para combinar o encontro... era início de ano ainda, e eu reforcei o meu desejo pra você de um ano com coisas boas e gostosas, e com o mínimo de sofrimento, que ainda que ele - o sofrimento -  faça parte da vida, a gente aspira é por ser feliz. Eu ainda disse que nem precisava ter medo de mim!rs. Eu fico aqui pensando o quanto essas palavras ressoaram na sua alma... talvez fosse o que você precisava mesmo ter ouvido naquele dia para ficar confiante no seu chamado. E assim foi... o mínimo do mínimo de sofrimento (se é que houve!).

Sabe... você também me mandou logo de cara a foto do seu gato preto - o Jimi Hendrix!

E até quando eu mandei foto aqui da família, você disse: falta só o gato!

Eu teria adorado saber mais desse seu momento gateiro, e do Jimi. 

E agora acho que foi um jeito muito simbólico e especial, de você deixar um aviso de como se faria presente por aqui de alguma maneira, nesta vida entre vidas.

Na primeira semana peguei meu notebook pra escrever sobre as coisas não ditas. Como dizer que você tava ótimo, e que gostei da roupa e das meias vermelhas, de contar o que tinha vivido nesses dias intensos da tua energia por aqui, do quanto te sentia comigo desde comecinho de novembro... tantas conversas que teríamos sobre tantas coisas a serem exploradas... Esse lugar da mudez é de início de uma frustração terrível (penso ainda demais sobre essa escolha entre o que dizemos e pelas quais deixamos de dizer!) - e senti então a necessidade de arrumar um jeito de te contar. Nessa noite, acabo deixando a porta do meu quarto aberta por causa do meu gato que tinha chegado molhado da rua...  E não é que de madrugada entra no meu quarto um gato preto igualzinho ao seu Jimi? Eu vejo a sombra, sei que não é o meu Tânio, ele chega próximo, mas se assusta e sai. 

Achei que nunca mais veria suas mensagens que eu sabia que tinha no messenger... mas no domingo resolvi tentar de novo, e encontrei! Foi surpreendente ver que você foi no mesmo dia e mês de um dos seus amigos, que você tinha me contado por lá e ainda pedido para eu rezar por ele! E eu fico pensando no que isso significaria... que tava tudo ok para ter sido assim nesse exato dia? Que confiava nas minhas preces? Queee...  enfim...

Ainda revi (e por isto também cá escrevo!), a mensagem bonita da Martha Medeiros, que diz no final "a única coisa que nos imortaliza  - mesmo - é a memória de quem amou a gente."

Tantas mensagens tuas em tantos anos, de tantas formas, que é impossível não se emocionar diante da tua não desistência. Um arrependimento por não ter falado com você antes - mas também um bálsamo por termos tido tempo de se amar, por essa despedida de ciclo.

Então é dia 15, e estou lembrando das mensagens e emotiva, apoiada na janela em frente a lua quase cheia. Olho para baixo, e meu olho com dificuldade vê um contorno na escuridão nas sombras do telhado. Acho que nunca vou esquecer dessa cena... do nada, uma silhueta quase imperceptível desenhada na escuridão entre os telhados. A silhueta do mesmo gato preto. Ele vem na minha direção, passa no telhado da frente, vira, para e senta diante de mim com seus olhos verdes... e fica assim... me olhando...  E claro, que eu me acabo de chorar, ao mesmo tempo em que nem acredito no que acontece! Foi mesmo mágico.

Sabe, que também é curioso lembrar das imagens aleatórias ou vozes tuas, que vinha no meu pensamento, em cada semana que se passou antes de te encontrar... elas também foram me contando um pouco sobre teus anseios...

E de todas as conversas que tivemos, de como tudo se encaixa.
Da tua resposta ao meu desejo para você de um Feliz 2022 (um coração e um gif de um ser se expandindo em luz!). 
De como eu acredito que você teve tudo naquela manhã, sobre a resposta do que agora significava amor pra você (vontade de ficar junto, intimidade, prazer, descoberta, tranquilidade, confiança, superação!).

Então, por tudo, vou ganhando certeza que o essencial foi mesmo dito, o essencial foi feito. 

Que por mais que a mente ache que podia ter sido isso ou aquilo diferente, o que resta ainda é perfeição.

E no meio a esses mistérios todos, e das dificuldades e ausências, o que eu mais sinto mesmo é Gratidão.

Por você não ter desistido.

Por de alguma maneira a gente ter se escolhido.

Por todo aprendizado compassivo, que foi muito além de qualquer teoria.

Pela superação.

Pelo tempo de tudo.


♥

03 maio, 2021

Abasta

 


Começando um novo perfil lá no Instagram e um novo site: 

Insta: _abasta_

Site: www.abasta.com.br


Um site/blog de contéudo de matérias sobre moda e consumo consciente, minimalismo, cultura do essencial...

E vestes conversíveis... e estreando com a Birdo, uma peça com mais de 15 formas de uso.

Confere lá!? 




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Remoção do Feed

O Blogger irá desativar o Feed em final de julho... 

Então, caso você receba as atualizações do Aromais via e-mail, infelizmente, em breve, deixará de receber! :( 

Tem dicas que gosto demais de partilhar só aqui pelo blog...  que é um mix de assuntos...

Mas enfim... seguimos...

Caso você tenha o Instagram, pode seguir meu outro perfil: @elemente_se!

Muito grata pela companhia, ainda que virtual!


Milene


23 abril, 2021

Me Chame Pelo Seu Nome

Tive que aparecer aqui pra falar desse filme.

Está disponível no Netflix nesse momento

Que interpretações dos atores! Que final... que cenários, que diálogos. Aliás o que mais chama a atenção nem são os diálogos, mas as sutilezas, os gestos, as posturas do personagem Elio. 

Uma obra de arte. Filme lindo.




27 fevereiro, 2021

Prisões

Praticar a afetividade e compaixão dentro e fora das prisões.

Fora, para que cada vez menos tenha-se que encarcerar.

Dentro, para que mais pessoas se libertem de suas prisões.

Em discussões na sociedade, para que cada vez mais mudemos o olhar sobre a existência das prisões.


Assista: https://vimeo.com/398088783


Traumas de infância não tratados mudam a forma como respondemos ao mundo e, quando acionados, fazemos escolhas que às vezes têm consequências devastadoras, incluindo violência doméstica, vício, assassinato e prisão.

Vamos mudar o paradigma de como encarceramos, isolamos e desumanizamos os membros mais traumatizados de nossa sociedade.



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